
O Lenhador ( Woodsman, The)
Realmente o cinema me fascina, a cada filme que vejo, seja ele complexo ou não, comédia ou drama, curto ou longo, percebo o quanto ganhamos ao nos sentarmos naquelas cadeirinhas pouco confortáveis ou diante de uma TV em nossas casas e nos entregarmos por inteiro ao que estamos vendo. Fico feliz principalmente quando vejo um filme como O Lenhador o qual não se escuta muito falar por aí e principalmente por saber que Nicole Kassel (diretora/roteirista) foi muito feliz em seu primeiro trabalho. Nas raras vezes que isso acontece gosto de pensar que é fruto de uma paixão colossal pela então chamada sétima arte.
O Lenhador me surpreendeu muito por sua “complexidade” facilmente passada para a tela, e pelo modo não apelativo e não sensacionalista que é tratado o tema (pedofilia), com um tema desses séria muito fácil polemizar e estragar o filme com cenas gratuitas, mas para nossa sorte a Diretora soube dosar perfeitamente.
O filme conta a história de um ex-detento tentando reconstruir sua vida. O único problema é que o crime que ele cometeu foi a pedofilia - nesse caso dificulta um pouco as coisas com a relação a sociedade - o título faz referência á fábula do Chapeuzinho Vermelho, na qual o lenhador – caçador – abre a barriga do lobo para salvar a criança.
Com o tema polêmico e muito delicado o filme não se prende simplesmente na pedofilia, a espinha dorsal é a conseqüência que ela trás e o que é mais interessante, a conseqüência que ela trás para o pedofilo . O filme é composto por uma ótica um pouco fora do comum hoje em dia, e é isso que faz o filme ser interessante, ele trás o problema visto pelo pedofilo, pelo criminoso, e como ele consegue – ou tenta - viver com seus medos, seus pensamento e principalmente desejos.
As atuações no geral foram comedidas, um destaque um pouquinho maior para o protagonista Kevin Bacon (Walter) que com seu jeito introspectivo próprio de ser, dá o ar necessário a personagem e principalmente não deixando-a cair em caricatura, e para atriz Kyra Sedgwick (Vickie) que também cai perfeitamente para o papel.
Um pequeno parêntese para comentário sobre a personagem Vickie: mesmo no começo do filme sem termos muitas informações sobre a personagem já percebemos que ela é um pouco diferente das que estão ao seu redor, provavelmente também com problemas psicológicos, mas que luta contra eles, ou pelo menos finge que luta. Mais tarde descobrimos que na infância foi molestada pelos três irmãos e ainda assim hoje em dia afirma que os ama, pelo simples fato de serem pessoas responsáveis e chefes de família.
A vida e as declarações dessa personagem pode ser vista como metáfora do que acontece nos tempos atuais em relação aos conceitos de uma sociedade que faz “vista grossa” para tudo e para uma sociedade de “compensação”. É comum ocultar-se erros logo que posteriormente há um acerto. Exemplo claro e de fácil entendimento é o que acontece com a política – ou quem não se lembra dos casos (paulistas) “rouba mas faz”; taxas e taxas X bilhete único; leve leite X Pita e o caso nacional, plano real X privatizações; enfim, só um adendo.
O roteiro foi escrito por Nicole Kassel e por Stephen Fecther e é baseado na peça da própria Fecther. Muito bem composto, bem amarado, personagens densas, o real se misturando com o imaginário e uma viagem perfeita na mente de uma pessoa lutando contra seus maus e o principal sem exageros.
O roteiro nos dá informações em doses homeopáticas, cada qual em seu momento certo, no começo do filme vemos informações na tela de computador, depois percebemos que Walter mora em frente a um colégio de crianças, vemos o chefe pedindo para ele se comportar. Nada em um filme é de graça, nenhuma cena é gratuita (reconheço que há exceções), vamos ganhando as informações aos poucos e vamos digerindo cada qual em seu momento certo, só vamos saber do que realmente se trata depois de mais ou menos um terço do filme ter passado.
A direção é algo de muito bom gosto, muito bem feita, planos perfeitos, ótimos enquadramentos usando desfocamento, esse tipo de técnica deixa o espectador mais dentro da estória, é como se sua própria visão sobre o assunto fosse desfocada, gosto quando o diretor usa esses tipos de efeitos para introduzir o espectador no filme. Em relação a direção dos atores, Nicole Kassel foi correta podemos dizer, tirando Kevin Bacon e Kyra Sedgwick, os outros foram comuns em seus papeis, não estragando e nem aparecendo mais que o necessário – coisa que hoje em dia já é uma vitória – de vez em quando surge alguns filmes em que todas as personagens aparecem ao mesmo tempo, deixando assim o filme confuso e poluído, tudo isso porque o diretor e o roteirista não sabem medir a importância e a necessidade de cada um para o filme. Sem contar os filmes que colocam vários atores “famosos” em vários papeis secundários só para fazer fazerem bilheterias...
Gostei de duas coisas em especial no filme. A primeira é o surgimento da personagem da garota (que gosta de passarinhos – não me recordo o nome dela). O filme não deixa claro em nenhum momento se ela existe realmente ou se não passa de fruto da imaginação da personagem Walter. A todo tempo aparentemente só ele a vê; só ele conversa com ela; ela sempre está sozinha; o diálogo entre os dois é muito enigmático e direto; na realidade é ela quem faz ele dar o primeiro passo para ser uma pessoal normal.
A Garota representa o seu alter ego, seu subconsciente, dá todas as respostas que ele precisa, faz ele se colocar do outro lado da situação e com isso faz ele tomar a iniciativa para dar o segundo passo, que vem em forma de uma suposta alto punição, explico, na seqüência em que Walter da uma surra no outro pedofilo há fleshs que parece que ele está batendo nele mesmo, é seu subconsciente se punindo e se libertando indo a caminho para a normalidade, com isso sua vida começa a “querer” mudar, ele se muda do apartamento que fica de frente com a escola e conversa com a irmã.
Outra coisa que eu gostei muito no filme foi a edição, alias para mim é o mais importante do filme, aproximadamente 80% dos cortes são cortes secos e na maioria invertendo as intenções das cenas (densa – calma), como o filme é sobre um tema pesado e complexo esse tipo de edição nos permite digerir tudo ao seu tempo.
Dentre toda a edição destaco a cena em que pela primeira vez os personagens principais fazem sexo... a cena em particular é rápida, acho que não dura dois minutos, e muito bonita visualmente, maravilhosamente intensa, perfeitamente sexy, introspectiva, e principalmente, fazendo um paralelo do real e do imaginário - lembranças talvez - tudo isso com uma camera hora objetiva (com ponto de vista do espectador como voyer) , hora subjetiva (com ponto de vista da personagem).
Acho que O Lenhador não vá ser um filme que agrade a todos, não chegue a ser um blockbuster, e nem um filme muito comentado, imagino até que passe por despercebido, mas de uma coisa eu posso ter certeza, é um filme muito bem feito e feito com paixão. Recomendo a assistir.
Avaliação: 8,5 por Alessandro Veloso

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