“Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei.”
Não sei para onde eu vou, vou para onde meu nariz apontar. Fico pensando, como será quando eu tiver que partir? Quando eu tiver que ir embora por qualquer motivo que seja... seja ele a dor: a dor de ser eu mesmo. Impaciência: a impaciência com a minha vida. Rotina: a rotina dos mesmos sonhos. Medo: o medo de vencer. E finalmente o etc., o etc. é tudo!... como será? Será que vai dar para levar minhas coisas? Vou poder levar as pessoas que amo e admiro? Será que se eu não puder leva-las elas irão sentir a minha falta? Será que faço falta? E eu vou sentir falta dessas pessoas? E o por que vou ter que partir, mesmo? São estas as perguntas que serram o meu cotidiano me fazendo assim tecer o meu pequeno testamento. E maldito é este meu punho que me força a escrever estas palavras de desalinho desafiando-me.
Não sei para onde eu vou, vou até aonde eu agüentar. Já me decidi não quero levar e deixar nada além de lembranças, os objetos tenho como selecionar e até abrir mão, mesmo os de valores sentimentais, pois não são estes sentimentos que vão me segurar, pois se fosse eu daria muito mais valor a eles neste momento de decisão. Agora, as lembranças, estas não tenho como seleciona-las, vou ter que levar tanto as boas quanto as más. Então esta é a única coisa que realmente vou precisar levar, mesmo me atrapalhando e dificultando ainda mais a minha partida. Pois só assim, mesmo de olhos fechados, vou poder olhar para trás e ver nitidamente o que o caminho que percorri.
Não sei para onde eu vou, vou até aonde o vento conseguir me empurrar. Levo comigo as lembranças de minha infância ímpar. Levo a lembrança de minha mãe lavando roupa em um tanque de pedra, cantarolando, assim tentando maquiar as angustias para que a vida não perceba, cabelos negros e lisos presos com uma tiara, camiseta surrada sem manga mostrando seus fortes e calejados braços brancos, saia rodada com lindas rosas brancas que pareciam verdadeiramente se abrirem cada vez mais. De quando em quando ela virava-se e sorria com um jeito confortante que só uma mãe tem, naqueles momentos eu me sentia seguro e protegido, mas a segurança ia-se embora quando ela novamente virava-se para continuar a sua faina (1) cotidiana, dando lugar novamente a minha imaginação de criança que voltara ao vê-la cantarolando lindas cantigas.
Não sei para onde eu vou, vou até minha mente mandar eu parar. Continuando em minha infância, levo comigo os deliciosos finais de semana na casa dos meus avós paternos, lá sim eu era amigo do rei, até hoje eu sinto o abraço gostoso de minha avó, linda e meiga margarida que hoje olha por mim e me abraça cada vez mais forte de um lugar especial. O olhar sereno de meu avô sempre recatado e quieto, tão quieto que eu me esforço e mesmo assim não me lembro de sua voz, talvez seja por isso que o que me faz lembrar meu avô é o seu olhar forte capaz de recitar tal qual Casemiro, Meus Oito Anos só com olhar e lembranças “Oh! Que saudades que tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais...” fazendo-me assim feliz por saber que hoje este mesmo olhar está direcionado a mim de um lugar também muito especial.
Não sei para onde eu vou, vou até eu me estressar e parar. Os meus avós maternos também levo comigo em minhas lembranças, minha avó tão guerreira feito Joana, a Darc, daí talvez se faz jus ao nome. Esta sim foi, é e será mãe ao quadrado, pois sustenta em seus braços sete vidas que se fez vinte e duas, que somam três e que num futuro somarão mais e mais...tudo isso por crer em um ser infinito e superior à natureza. Levo também comigo a imagem de meu avô, tão intensa quanto o luaR que brilha em cima de um homem forte e viril levantando e sustentando a família com uma força surpreendente. Não o culpo se algo deu errado, afinal esse homem me ensinou através de metáforas que errar é humano e persistir é simplesmente querer acertar.
Não sei para onde eu vou, vou até o meu livro acabar. Ah, minha infância...talvez sem um ou outro ao meu lado passei-a e hoje com saudades recordo o futebol na rua, bolinhas de gude na beira da calçada, álbuns de figurinhas, as festinhas aonde eu adora dançar músicas românticas com as colegas da rua, a escola, os professores - que por sinal foi aonde eu arrumei a minha primeira idéia de amor, eu fazia fantasias inocentes com minha professora do quarto ano..., os amigos, o meu primeiro beijo, o meu primeiro livro, a minha primeira perda, os meus medos, os meus sonhos... foi assim que passei minha infância, comum, porém intensa. E estas são as lembranças de minha meninice que levarei comigo!!
Não sei para onde eu vou, vou até o Cazuza para de cantar, o Nelson de desmoralizar e Bergman de me fazer sonhar. Minha adolescência!!! Se fosse possível não levaria comigo, apesar de ter sido um momento importante aonde tirei do meu caminho os pontos de interrogação e coloquei em seus lugares virgulas, dando assim mais motivos para eles aparecerem atualmente. Minhas lembranças de adolescente são muito rudes, foi quando eu comecei a descobrir o mundo e ver que nem sempre a Bela Adormecida acorda no final, que o Pinóquio mente simplesmente para poder sobreviver dentro desta sociedade suicida e que o Príncipe Encantado não chegará tão sedo para beijar a Branca de Neve, pois é dia de rodízio e os ônibus estão novamente de greve, foi o momento que descobri que nem todas as pessoas se amam e que definitivamente não sou amigo do Rei. Levo as lembranças da humilhação por um emprego, me vi morrendo de inanição de educação, aonde os meus sonhos foram-se quando eu mais precisava deles? Todos se foram me deixando somente a saudade, saudade de adolescente... agora entendo a frase de Mário Prata; “ Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue” fiquei frustrado em querer voltar a sonhar e não conseguir mais... viver me estragou a vida e os degraus dessa, me deixaram impuro. Prefiro não relatar mais os momentos difíceis de minha adolescência, não vou dividir estes verbos de tão mal gosto, simplesmente vou leva-las comigo.
Não sei para onde eu vou, vou até eu escutar a voz que tanto espero, dizendo: Pára!! Já da minha fase adulta levo as lembranças de alguns amores, aquela que me ajudou, aquela outra que me criou, aquelas que me apoiaram, aquelas que me fizeram ter o prazer de sonhar novamente, aquelas que estavam ao meu lado a todos os momentos, etc., – você já imaginou quantas virgulas existem dentro de um etc.? Como eu já disse, o etc. é tudo!! As lembranças do meu casamento e tudo que não fiz para tentar melhora-lo, as enorme experiência que conquistei, o amor daquela que me suportava dia a dia, levarei dentro de uma camisa de onze varas (2). Levo a imagem de minha esposa sorrindo, pois sei que foram poucos os momentos de felicidade que consegui proporcionar a ela. Não quero levar as lembranças do mal que a fiz, me nego a isto!!! Mas como regras são regras, vou ter que lava-las mesmo assim.
Não sei para onde eu vou, vou até eu encontrar o momento certo de parar. Vou levar inclusive as lembranças cujo eu ainda não vivi, do irmão mais velho que não tive, do respeito de minhas irmãs mais novas, do pai que também me faltou, meus novos amigos, minha carreira de sucesso, meus dois filhos amados, meus pensamentos límpidos e minha consciência de missão cumprida.
Enfim, não sei para onde eu vou, só sei que a única coisa que vou poder lavar são as lembranças e a saudade de viver. Por este motivo deixo este testamento, daquilo que tenho de mais precioso, ou melhor, compartilho com todas as pessoas que amo estas lembranças em que nós vivemos, eu e vocês, somente nós, sem ninguém mais por perto além do tempo, este que não perdoa aqueles que o desfruta, “o tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...”. Então ficaremos com as saudades!!
Subo em meu cavalo-de-três-pés (3) e saio em disparada em caminhos desertos...

Já sei para onde vou!
ResponderExcluirVou para um lugar distante e colorido onde voarei com as borboletas e a única coisa que importará é o vento dançando sob as minhas asas.
Lindo o texto...
Beijo